Texto foi lido, através de vídeo, pelo cantor e marca o início oficial da disputa de samba-enredo
O Império Serrano apresentou, na noite desta terça-feira (28), a sinopse do enredo “Seja marginal, seja herói: a revolução em sua legítima razão”, que levará para a Marquês de Sapucaí no Carnaval 2027, pela Série Ouro. O texto, assinado pelo carnavalesco Renato Esteves e pelos enredistas Jorge Sant’Anna e Manu Rosa, foi interpretado pelo cantor Chico César.
Conheça o texto do enredo do Reizinho de Madureira:
SEJA MARGINAL, SEJA HERÓI – A REVOLUÇÃO EM SUA LEGÍTIMA RAZÃO
“Eu não tenho culpa de retratar a história.
Não fui eu que a escrevi. ”
Silas de Oliveira
SINOPSE
Pelo fim da tirania e do medo que atravessou ditaduras, perseguições, censuras, porões e exílios.
Pelo fim da violência que tentou reduzir nossos sonhos a cinzas. Incendiaram arquivos, bandeiras e livros na ilusão de que o fogo pudesse silenciar ideias. Levaram companheiros, perseguiram vozes. Tentaram sufocar a nossa sede de liberdade.
Mas esqueceram que o conhecimento não arde nas chamas e nem a memória se rende à fumaça. Das ruínas do velho prédio na Praia do Flamengo ergueu-se ainda mais forte a centelha da resistência. Porque a chama da revolução jamais será apagada pelo ódio.
Não passaremos mais noites e dias entre o lamento e a agonia. Das ruas, das salas de aula e grêmios estudantis, dos palcos e terreiros, dos cineclubes e barracões ergueremos trincheiras pela liberdade. Somos corações de estudante pulsando pelo mesmo ideal. Nenhuma força será capaz de silenciar uma juventude que aprendeu a sonhar de olhos abertos.
Por tantos Josés com sobrenome Silva, representando milhões de brasileiros que constroem este país. Herdeiros daqueles que lutaram e espelho para os que ainda virão. Não deixaremos esquecer que a democracia foi construída por pessoas que tiveram coragem de resistir e se organizar. Exaltemos aqueles que não aceitaram o papel de figurantes da própria história.
É preciso recriar o mundo. É preciso fazer arte!
Não iremos repetir a velha antropofagia de salão. É tempo de reantropofagia: tomar de volta a palavra, o corpo e o canto. Fazer o Brasil pensar o Brasil por si mesmo. Transfigurar Woodstock, Berkeley, Cuba e o Maio de 68 em subúrbio, favela e terreiro, em cinema, teatro e samba. É tempo de contestar os valores e os padrões da sociedade dominante.
Reantropofagizar é fazer o Brasil se olhar pelo avesso. É transformar dores em linguagem. O Brasil jamais será cópia de outras revoluções. O Brasil inventa sua própria febre. É necessário fazer mais que cultura. É necessário fazer contracultura.
Censura não cala a arte. É preciso estar atento e forte! É proibido proibir!
Ergueremos novamente os Centros Populares de Cultura. Estenderemos o banquete crítico de O Rei da Vela. Invocaremos o Teatro Experimental do Negro. Convocaremos o Teatro de Arena, a palavra coletiva, o riso feroz, a cena em transe e a dramaturgia que fez do palco, trincheira. Penduraremos versos de Gullar nos muros, para que o povo reconheça na poesia, a real dimensão da desigualdade social.
Uma, duas, cinco vezes favela! Faremos Cinema Novo para expor as feridas que o Brasil tentou esconder. Câmera na mão, ideia na cabeça. O povo no centro do quadro. Se a terra estiver em transe faremos dela, denúncia. E a música, nossa forma antiga de desobediência, atravessará fronteiras. Escreveremos nas entrelinhas cantando a desordem do mundo. Transformaremos a nossa voz em tempestade.
Que a juventude transviada, marginalizada pelo sistema, seja a heroína da nação. Se questionar a opressão é ser chamado de baderneiro, então que sejamos baderneiros com orgulho. Para ser marginal é preciso ser herói.
A liberdade floresce nos subúrbios, ecoa nos terreiros e caminha pelas páginas vivas da história do nosso povo. Habita em cada voz que canta e em cada corpo que resiste enquanto o medo insiste em tombar.
A liberdade é teimosia! Renasce da memória dos que se foram. Cresce na luta dos que permaneceram. Encontra abrigo onde houver gente disposta a transformar o mundo.
Desceremos o morro de cara pintada caminhando e cantando, como bandeiras vivas, vestindo os parangolés de Hélio.
Faremos passeata.
Faremos carnaval.
Faremos do desfile, manifestação.
Desfilaremos para exaltar nossos heróis que desapareceram. Em procissão, reivindicaremos nossos direitos. Cantaremos em coro, reergueremos em melodias o que a chama um dia tentou apagar. Gritaremos com orgulho os versos que atravessaram fronteiras e exílios, transformados por Ferreira Gullar em hino nacional como manifesto de resistência:
“Essa brisa que a juventude afaga
Esta chama que o ódio não apaga
Pelo universo é a evolução
Em sua legítima razão”
São noventa anos de uma juventude organizada que une o Brasil em defesa dos direitos, da democracia e da liberdade. São oitenta anos de um menino de 47, nascido para lutar. Cantando, transformando o samba em voz popular e a avenida em território de resistência. A Juventude e o Império Serrano se aliam para fazer um samba-enredo-manifesto pela liberdade.
Ontem, chamados de marginais, subversivos e baderneiros.
Hoje, heróis de uma nação. Seguiremos vivendo. E por que não?
Porque a liberdade já raiou. É a revolução em sua legítima razão.
Enredo, pesquisa e texto: Manu Rosa, Jorge Sant’Anna e Renato Esteves.
Carnavalesco: Renato Esteves.
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