Império da Penha levará o “Pilão” como enredo no carnaval de 2027

Em sua estreia no carnaval carioca, o Império da Penha, que desfilará pelo Grupo de Avaliação na Intendente Magalhães em 2027, terá como o enredo “Pilão”, desenvolvido pelo carnavalesco Davi Gbanna. A ideia do tema é exaltar esse objeto símbolo de tudo o que ele se permitiu e permite ser: resistência, coletividade e identidade cultural do povo brasileiro.

 

Muito antes de ocupar cozinhas, terreiros, aldeias e quintais do Brasil, o pilão já se fazia ecoar como instrumento sagrado em diversas civilizações africanas. O surgimento do pilão possui forte ligação com os Orixás, divindades da tradição iorubá que vieram de além-mar guiando seus filhos para um novo destino.

 

Atravessando tempos, crenças e saberes populares, o pilão também é aquele que embala cantos, danças e celebrações coletivas. Seu som marca o compasso da resistência de um povo que, no “socar do pilão”, assinou sua identidade na história.

 

SINOPSE

Tudo começa na África e nessa história não seria diferente… É no coração e das mãos  do povo negro que partimos para a evolução do mundo e é na mesma África que surge Oxaguiã, jovem guerreiro do panteão iorubá, senhor da coragem e da paz.

Contam as lendas que Oxaguiã recebeu o pilão das mãos de Ogum, poderoso orixá da forja sagrada, senhor dos ferreiros e dos caminhos. Grande amigo e companheiro de batalhas, Ogum foi aquele que criou as ferramentas para que a humanidade pudesse trabalhar e evoluir. Entre suas invenções estava o pilão, presente criado especialmente e ofertado a Oxaguiã, apreciador do inhame, alimento cujo preparo exigia grande esforço. Com o novo instrumento, o trabalho tornou-se mais simples e eficiente.

Oxaguiã então entregou o pilão ao povo de Elegibô, seu reino, cuja sobrevivência dependia da colheita do inhame. Assim, o instrumento desceu à Terra como herança sagrada, destinado a alimentar corpos e fortalecer espíritos. Mais do que objeto de uso cotidiano, tornou-se símbolo de fé e prosperidade.

Atravessando o Atlântico, o pilão desembarca em terras tupiniquins e passa a integrar profundamente a cultura colonial e rural. Nas senzalas, nas cozinhas das sinhás, nos terreiros das fazendas e nas comunidades, trabalhou lado a lado com aqueles que o trouxeram. Moeu milho, pimenta, café e dendê. Entre uma batida e outra, testemunhou o suor e as lágrimas de um povo que, assim como ele, envergou, mas não quebrou. Madeira de lei, símbolo de resistência.

Nas mãos dos pretos-velhos e das rezadeiras, o pilão resgata sua missão divinizada. Macera ervas para banhos sagrados, prepara pós para mandingas e fortalece tradições transmitidas pela ancestralidade. Nas aldeias indígenas, também escreve sua própria história, tornando-se parte dos saberes e práticas de diferentes povos.

Mergulhando novamente em sua essência sagrada, chegamos ao terreiro de candomblé. Ali, o pilão ocupa lugar de destaque nos altares e pejis. Nos quartos sagrados, sustenta a coroa e o Igbá, materializações da força de Xangô. É também ao redor dele que, após os ritos das Águas de Oxalá, celebra-se a Festa dos Inhames Novos, ou Pilão de Oxalá. Vestidos de branco, os filhos de axé reverenciam Oxaguiã, que ensinou que o alimento transformado pelo pilão ganha caráter sagrado, e que comer é celebrar a vida, fortalecer o corpo e honrar a ancestralidade.

O pilão transforma-se, então, em instrumento de transformação social e espiritual. Das terras africanas às festas populares brasileiras, resiste ao tempo e se torna patrimônio afetivo do Brasil. Está presente na culinária, nos sambas de roda, nos jongos, nos batuques e em inúmeras manifestações que fazem do país uma nação culturalmente pulsante.

Por sua importância, o Império da Penha canta o Pilão como símbolo de união entre África e Brasil, entre tradição e futuro, entre o sagrado e o popular. O Pilão é a essência da identidade nacional.

“Quando o pilão bate, o povo canta.
Quando o povo canta, a memória vive.
E no terreiro que é a avenida, o samba celebrará a força ancestral que transformou dor em cultura, alimento em resistência e tradição em eternidade.

Texto e Pesquisa – Davi Gbanna.

Texto – Nathan Souza.

 

** Este texto não necessariamente reflete, a opinião do FoliaDoSamba